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terça-feira, 1 de junho de 2010

JOVENS VÂNDALOS

Li no Jornal do Commercio de domingo (30/05/07), que um grupo de jovens organizaram uma baderna através do Orkut e, depois do feito, divulgaram sua atuação no YouTube. Muito poderia ser dito sobre estes jovens e sua juventude perdida. Autoridades policiais, psicanalistas e pais vêem o (mal) exemplo como um momento para glorificar um passado (o seu obviamente) onde os jovens eram calmos e respeitavam as leis (paternais ou sociais).

Gostaria de endossar as críticas, mas usar o futuro do pretérito do verbo gostar não foi mero acaso. Para aqueles que desconhecem, esse tempo verbal indica uma ação que ia ocorrer (futuro), no entanto algo a impede deixando-a na impossibilidade (passado). Perdoem meu ceticismo. Acho, apenas, que o discurso saudosista olha as conseqüências e não as causas. Criou-se um discurso silencioso nos meios jornalísticos, que como diz Eni P. Orlandi (2007, p.16) “[...] produzem realmente a multiplicação (diversificação) dos meios mas, ao mesmo tempo, homogeneízam os efeitos”, por outras palavras, classificar o evento corrido de falta de limites dos adolescentes atuais é esquecer que o sujeito se constitui na/pela história.

A psicanálise explica que a adolescência é uma fase-crise, aquela criança que olhava para os pais e via grandes heróis, perfeitos e indestrutíveis, começa a perceber nos pais o seu reflexo falho, distorcido e imperfeito. Essa energia que foi investida retorna e agora será lançada em outro(s) objeto(s). Dar ouvidos ao conselho de amigos e namorados parece natural então. Portanto, seria esse o momento de dizer que aqueles jovens foram influenciados por mentes juvenis desequilibradas? Talvez fosse mais uma resposta fácil. Direi não e explico-me através da pergunta (o não-dito): Por que anunciar com antecedência em um site de relacionamento diante de todos os internaltas? Por que divulgar a filmagem em um site onde todos podem ver? Seus rostos serão identificados, por que correr esse risco?

Alguém dirá: “São jovens carentes, que não tiveram boa educação nem de casa nem da escola.” Os leitores que pensam assim estão enganados. Mais uma vez caíram no velho-novo discurso jornalístico. Pois, nos levaria a concluir que os culpados são os pais e professores e, perdoem insistência, isto seria muito fácil, não? Volto a questioná-los. Por que escolher um meio eletrônico a vista de todos? Os antigos nos ensinaram a tramar na surdina, criar códigos como os templários e desconfiar de tudo e todos para que o segredo fosse bem guardado como na guerra fria, mas aqueles jovens não fizeram nenhuma esforço para esconder o que estavam tramando. Esse é o discurso silencioso que comentei mais acima, um discurso que a mídia impressa e televisiva esqueceu-se de resgatar (coincidência?).

Há, na adolescência, outra crise acontecendo: a busca da identidade. O jovem deseja saber quem ele é longe dos pais e qualquer figura representante de autoridade como os professores, por exemplo. Como se eles olhassem para o mundo e perguntassem: “O que você espera de mim?”, “O que quer que eu seja?”, “O que eu quero ser?”. Na busca por respostas, ele olha para a própria cultura - a mesma que grande parte dos pais e professores (mais estes que aqueles, infelizmente) passaram a vida inteira alertando-os para tomarem cuidado e aprenderem a pensar por si mesmos. E o que a cultura lhes responde: TENHA VISIBILIDADE.

Mesmo que para isso seja preciso andar de fio dental em um programa televisivo e jogar fora seu curso de advocacia, medicina, docência...; mesmo que tenha que aparecer numa capa de revista masculina ou de fofoca sem calcinha (de propósito claro! Para depois dizer que não sabia.); mesmo que fale “probrema”, mas exiba um corpo sarado e músculos definidos; mesmo que faça um filme pornô e chame isso de arte; mesmo que tire a roupa no meio da rua (e depois diga aos repórteres que o fez como sinal de protesto); mesmo que case com alguém famoso(a) e dois dias depois separe; mesmo que para isso precise ir ao motel com três travestis; mesmo que tenha que casar com um bandido..., se o resultado for obter visibilidade, com certeza haverá sucesso e no final felicidade.

Não se choquem. Olhem para os comerciais, as novelas, os tele-jornais, as revistas de fofoca... todos querem aparecer na mídia, serem vistos, serem famosos. Disse Arnaldo Jabor em uma crônica: “Num país onde todos querem ser vistos, ninguém vê ninguém”. Porque só assim seremos felizes. Por isso, os jovens da zona sul postaram o vídeo no YouTube, eles queriam ser vistos. Já posso até imaginar um pequeno diálogo no Orkut após a saída da matéria no JC:


Assaccinosserialquiller:

VIU?! SAIMO NO JORMAL TAMO FAMOSO, MOVEIO! NA PROCHIMA, MATAMO GENTE!

Onoismetalhamooprofeçoor:

INTÃO!!!!!! E NOIS!!! E SO ISCOLE O CANO!!!!!!!!!!!!

OBS.: O diálogo e os erros são fictícios!

Escrevi o texto, pois estou cansado de ver velhas mazelas sendo vistas como novas. Ouvir as pessoas conversando nos ônibus glorificando um passado que não volta mais. Ler livros que culpam nós, professores, por não conseguirmos derrotar a grande mídia e seu discurso silencioso de mover o mundo não pensando num bem-estar comum, mas e apenas, no lucro que podem obter, vendo jovens destruírem suas vidas contanto que tenham algo para publicar. Recomendo a leitura do texto de Arnaldo Jabor “Reality Shows matam nossa fome de verdades”. Para analisar como nós ficamos tão fascinados por esses programas que mostram a “realidade”.

Por isso, numa cultura de consumo, exibicionismo e valorização da mediocridade me espanta a matéria estampada na capa do jornal. Como disse, isto é a conseqüência não a causa, ninguém deveria ficar chocado. Olhem para a nossa cultura atual e se pergunte: Não é esperado? Não é óbvio que iria acontecer? Antes de assustados deveríamos bater palmas para esses jovens, pois eles conseguiram. Concretizaram o sonho midiático, alcançaram o show business, obtiveram seus cinco minutos de fama. Pais orgulhosos: “Agora, meu/minha filho(a) é famoso(a)!”; Nós, docentes, também vamos aplaudi-los de pé: “Finalmente fizeram jus a nosso salário medíocre! Quem precisa de educação quando se tem televisão e fama?! Quem?”. Jovens, estamos orgulhosos de vocês! Parabéns! Mas, infelizmente daqui a pouco seu sucesso será coisa velha, não venderá estampará mais capas de jornais e revistas ou estará nos tele-jornais, por isso vão precisar de algo mais grave, o que será?

P.S.: ESTE TEXTO FOI ENVIADO AO JORNAL DO COMMERCIO-PE.

sábado, 15 de maio de 2010

AULÃO DE REDAÇÃO


Primeiro, gostaria de agradecer a participação de todos os alunos no aulão de hoje, foi realmente uma aula instigante. Falar-lhe sobre o capitalismo suas vicissitudes, verossimilhanças e fraquezas foi uma oportunidade como tenho em poucas vezes nas aulas de redação. Dito isto, aviso que o link para dar o download no slide do aulão encontra-se abaixo:

AULÃO DE REDAÇÃO

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terça-feira, 11 de maio de 2010

PROBLEMAS DO CONTEMPORÂNEO

O cartunista Quino (criador de Mafalda) ilustra os grandes pilares da nossa cultura moderna. O homem que dantes comemorava os avanças tecnológicos e científicos como etapas para adentrar ao paraíso padece hoje no inferno da desilusão e solidão. Estamos vivendo num "populoso mundo solitário". Sem necessidade de legendas, pois as imagens são auto-explicativas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O MOVIMENTO EMO

EMO seria uma abreviação da palavra inglesa "emotion" (emoção). São pessoas que se vestem de preto (ou roupas escuras), pintam os cabelos com o intuito de criar um visual mais sombrio e aparentam melancolia e tristeza constante. Mesmo que isso seja caricatural ou que em algum momento essa descrição não alcance todos os aspectos dos emo's hoje, o que me faz falar deles é exatamente a última parte a tristeza.

Suas fotos que podem ser conferidas em vários fotolog's espalhados pela internet revelam isso. Estão sempre sérios ou em atitudes que contradizem alguém que está feliz por pertencer a um grupo de amigos, estar em um momento de descontração... Suas representações em forma de cartoom, como a foto escolhida para ilustrar nossa postagem, trazem emoções exaltadas, atitudes que beiram a paranóia, feições sombrias... parece se constratar com outro tipo de imagem
viculado nos comerciais de cerveja - não estou em momento algum afirmando que o movimento emo surgiu em oposição as garotas dos comerciais de cerveja, mas que as mulheres dos comerciais de cerveja são estereotipos para aquilo que alguns teóricos, dentre eles o psicanalista francês Charles Melman, chamam de "imperativo da felicidade".

Essas duas imagens postas logo acima demonstram bem esse antagonismo. Enquanto a mulher do comercial de cerveja está seminua, a menina emo veste-se dos pés a cabeça; esta se já não os têm tinge os cabelos de preto, aquela, de loiro; a primeira é serviçal, a segunda, radical; a mulher do comercial de cerveja esbanja sorrisos, a menina emo permanece séria.

Quando a tristeza vira moda significa que algo está acontecendo. E o movimento emo, para mim, representa exatamente isso, um manifesto a tristeza. Num mundo onde ninguém pode ficar triste, pois está deprimido ou estressado, um grupo de jovens veste-se para de preto (como se estivessem em luto). A indústria dos antidepressivos suprime o soma do Admirável Mundo Novo do Hurxley, as pessoas fazem festa quando se divorciam, vão ao shopping quando estão chateadas, ou seja, impedem a si próprias de sentir-se "down".

E aqueles jovens esquisitos estão tentando nos mostrar como estamos sendo obrigados a sermos felizes, procurando essa felicidade, no consumo, no sexo, na internet, nos remédios, nas academias, nos shopping centers..., em todos os lugares..., mas será que a tristeza é tão ruim assim? Ficar em casa sozinho, sem querer ver ninguém..., é, pensando bem, ao fazer isso não estamos gastando dinheiro, não estamos fazendo a máquina do consumo funcionar, talvez seja por isso que os comercias mostrem pessoas alegres, felizes ao comprarem.

Aquele grupo de esquisitões vestidos de preto que vivem passando por nós na rua com um certo olhar de desprezo esteja nos dando uma lição e tanto, ao usa a tristeza como badeira de guerra façam com que a gente pense: "Quando foi a última vez que me deixe ficar triste?", mas triste mesmo, não aquela vez em que alguém ligou para mim e me chamou para sair, pois não queria me ver "down"? Quando foi a última vez que deixei que a tristeza realmente ficasse em mim e que depois de alguns dias passasse como uma gripe, e como esta, que eu sentisse que meu corpo ficou mais forte, que aprendi algo, ganhei experiência? Quando? Sem livros de auto-ajuda, sem msn messeger tendo convulsões de pessoas me dando conselhos baratos?

Ficar deitado numa cama sem contato com o mundo, sozinho. E aí vem outra pergunta, quando foi a última vez que fiquei só ouvindo Everybody Hurts do R.E.M.. Quando?

domingo, 28 de março de 2010

A ARMADILHA DA CORRUPÇÃO [3.11.2005]


No fim de semana passado, estive no encontro do Instituto DNA Brasil, em Campos do Jordão. O evento reunia pessoas representativas de várias áreas, para que, durante três dias, debatessem sobre os meios para tornar o país "justo e habitável com dignidade".

Um dia inteiro foi dedicado ao tema da corrupção. A imprensa já relatou as sugestões às quais a gente chegou, consensualmente ou quase: desde o financiamento público das campanhas até o voto distrital misto ou a possibilidade de revogar os mandatos antes do seu fim.

No sábado, bem na hora em que começava a discussão sobre a corrupção, chegou a revista Veja, com a reportagem de capa sobre o suposto financiamento cubano na campanha do PT de 2002.

A pior conseqüência desta série interminável de denúncias e apurações é a aparente "confirmação" de um lugar-comum desastroso: "Eles são todos corruptos" ("eles" são, no caso, os políticos).

Não me importa agora decidir se "eles" são mesmo todos corruptos. Tampouco penso que a imprensa tenha de esconder o que ela descobre só para não "comprovar" que "eles são todos corruptos". Mas o fato é que esse lugar-comum é uma armadilha para nossa capacidade de agir como cidadãos.

Aparte: a reunião do DNA não caiu na armadilha da indignação diante da corrupção generalizada, e esse não foi o menor de seus méritos. Mas a exceção não derruba a regra que vou expor.

Qual é o efeito em nós do "eles são todos corruptos"?

Várias vezes, nos últimos meses, fui entrevistado sobre o estado de espírito dos brasileiros nas circunstâncias atuais. A pergunta, quase sempre, sugeria a resposta esperada: "Quais são os efeitos em seus pacientes da decepção e da depressão nacionais?". Em geral, respondi, preguiçosamente, que, de fato, os acontecimentos são tristes e deprimentes.

Mas essa resposta óbvia (para a qual não seria preciso um especialista) é falsa.

Em regra, o narcisismo da gente funciona assim: quanto maior a imperfeição do mundo, quanto maior a decepção que nos é imposta pela conduta dos outros, tanto maior é nossa exaltação narcisista. No caso, atrás das queixas, a constatação de que nossos representantes e governantes seriam todos corruptos está longe de ser depressiva.

É lógico: acreditar que os outros sejam todos deficientes morais é o melhor jeito de afirmar que nós, ao contrário e em comparação, somos gigantes da moralidade.

Contemplar o mundo como um vasto teatro de defeitos equivale a erigir um monumento à nossa suposta integridade, graças ao seguinte raciocínio implícito (capenga, mas gratificante): se podemos constatar que todos os outros são corruptos, é porque somos os ÚNICOS limpos. De repente, confirmar nossa grandiosa unicidade se torna nossa ocupação principal. Com isso, é paralisada nossa capacidade de transformar o mundo.

A psicologia do self (esta foi, ao meu ver, sua maior contribuição à psicanálise) mostrou o seguinte: temos acesso ao mundo e a uma ação minimamente eficaz para transformá-lo quando paramos de contemplar sua imperfeição (celebrando a unicidade de nossa diferença) e enxergamos na realidade algo (diferente de nós) que possamos idealizar.

Por exemplo, se vivo numa cidade em que acho horríveis todas as habitações salvo a minha, dedico-me integralmente a caiar de branco a fachada de minha casa, na qual, aliás, fecho-me como num sepulcro. Mas se reconheço que, na cidade, há outras moradias que são mais bonitas do que a minha, há chances que um dia eu queira sair de pincel e vassoura na mão para pintar de branco as fachadas da cidade inteira e para lavar as calçadas.

O que vale para as casas vale para os outros. Se acho que todos os outros são imperfeitos, considero-me como a única exceção, torno-me meu próprio ideal, ou seja, só idealizo (e amo) a mim mesmo. É a razão pela qual, em geral, um terapeuta se abstém de julgar moralmente seus pacientes: quem julga está quase sempre mais preocupado em comemorar sua própria integridade do que em entender o outro.

Em suma, as denúncias que assolam nosso cotidiano podem dar lugar a uma vontade de transformar o mundo só se nossa indignação não afetar o mundo inteiro. "Eles são TODOS corruptos" é um pensamento que serve apenas para "confirmar" a "integridade" de quem se indigna.

O lugar-comum sobre a corrupção generalizada não é uma armadilha para os corruptos: eles continuam iguais e livres, enquanto, fechados em casa, festejamos nossa esplendorosa retidão.

O dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro.

Nota: alguns conseguem contemplar e lamentar a imperfeição do mundo sem se gabar de sua própria perfeição. O melhor exemplo (e o mais raro) são os santos. A santidade não consiste só em reconhecer suas próprias falhas ou em perdoar as falhas dos outros. O santo, além disso, enxerga a imperfeição do mundo, mas continua encontrando razões para amá-lo, ou seja, continua encontrando seus ideais lá fora, na banalidade imperfeita dos outros.


Autor: Contardo Calligaris

sábado, 27 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE O GOVERNO LULA


"Pode ser até que chegue ao poder (uma liderança revolucionária que não seja dialógica com as massas), mas temos nossas dúvidas em torno da revolução mesma que resulta deste quefazer antidialógico." (Pg.144)


"Se são levas ao processo como seres ambíguos, metade elas mesmas, metado o opressor 'hospedado' nelas, e se chegam ao poder vivendo esta ambigüidade que a situação de opressão lhes impõe, terão, a nosso ver, simples impressão de que chegaram ao poder." (Pg.144)

"A verdadeira revolução, cedo ou tarde, tem de inaugurar o diálogo corajoso com as massas. Sua legitimidade está no diálogo com elas, não no engodo na mentira. Não pode temer as massas, a sua expressividade, a sua participação efetiva no poder. Não pode negá-las. Não pode deixar de pretar-lhes conta. De falar de seus acertos, de seus erros, de seus equívocos, de suas dificuldades." (Pg. 145)"Daí que o populismo se constitua, como estilo de ação política, exatamente quando se instala o processo de emersão das massas em que elas passam a reinvidicar sua participação, mesmo que ingenuamente." (Pg. 170)


"O lider populista, que emerge neste processo, é também um ser ambíguo. Precisamente porque fica entre as massas e as oligarquias dominantes, ele é como se fosse um ser anfíbio. Vive na 'terra' e na 'água'. Seu estar entre oligarquias dominadoras e massas lhe deixa marcas das duas."
Enquanto populista, porém, na medida em que simplesmente manipula em lugar de lutar pela verdadeira oraganização popular, este tipo de líder em pouco ou quase nada serve a revolução." (Pg. 170)
"É interessante observar a dramaticidade com que Vargas falou às massas obreiras, num primeiro de maio de sua última etapade governo, conclamando-as a unir-se." (Pg. 171)

Dicurso de Lula:

Aprofundamos nossos programas sociais, especialmente os de transferência de renda. Aumentamos os salários acima da inflação. Estimulamos, por meio de medidas fiscais, o consumo para impedir que se detivesse a roda da economia. (…)

Mas não tenho a ilusão de que poderemos resolver nossos problemas sozinhos, apenas no espaço nacional. A economia mundial é interdependente. Estamos todos obrigados a atuar além de nossas fronteiras. Por isso, é imprescindível refundar a ordem econômica mundial."

Discurso de Vargas:

"Quero dizer-vos, todavia, que a obra gigantesca de renovação, que meu governo está começando a empreender, não poder ser levada a bom termo sem o apoio dos trabalhadores e sua cooperação cotidiana e decidida."

"Enquanto a ação do líder se mantém no domínio das forças paternalistas e sua extensão assistencialista, pode haver divergências acidentais entre ele e grupos oligárquicos feridos em seus interesses, dificilmente, porém, diferenças profundas." (Pg.172)



"É que estas formas assistencialistas, como instrumento da manipulação, servem à conquista. Funcionam como anestésico. Distraem as massas populares quanto à solução concreta destas problemas. Fracionam as massas populares em grupos de induvíduos com a esperança de receber mais." (Pg. 172)

As citações paginadas foram extraídas do livro de Paulo Freire: Pedagogia do Oprimido. Esse livro foi escrito na década de 70.

Qualquer semelhança com as imagens é apenas mera coincidência!

quinta-feira, 11 de março de 2010

PROBLEMAS DA EDUCAÇÃO HOJE!


Um peso e várias medidas


No filme, “Ao mestre com carinho”, vemos um professor negro que na verdade é formado como engenheiro e para não ficar desempregado, assume o papel de educador. Mesmo recebendo um salário baixo, ele persiste na profissão causa uma revolução numa sala de aula de adolescentes desordeiros. Os elementos que figuram esse filme estão presentes em diversas obras cinematográficas que desejam retratar a sala de aula. A figura do professor(a) pobre que revoluciona a sala de aula é épica e lendária, e é usada como discurso para nunca (ou quase nunca) debatermos sobre uma remuneração digna para os docentes.


Em um mundo capitalista, onde a mais-valia é imperativo fundamental, os empregos que melhor remuneram seus empregados são aqueles que pela lógica própria do capital atraem as melhores cabeças. Dessa forma, os cursos de licenciatura tornam-se sub-opções nas escolhas dos candidatos que prestam vestibular. Para confirmar esse raciocínio basta dizer que nenhum estudante conclui o ensino médio, faz a prova do vestibular e passa de quatro a cinco anos em média na faculdade para tornar-se (com todo o respeito e necessidade dessas profissões) motoristas de ônibus, copeiras, lavadeiras, empregadas domésticas, domésticas, catadores de lixo, camelôs...; hoje, um cobrador de ônibus recebe um salário maior que um professor que possui uma carga-horária alta como, por exemplo, o limite que é duzentas horas-aula.


O ingresso nos cursos de licenciatura faz-se por não-capacidade de ingressar em outros cursos. O aluno de Letras muitas vezes queria fazer jornalismo ou direito, ou ciências sociais, mas por incapacidade de atingir a nota para estes, acaba optando por aquele; o estudante de biologia outrora vislumbrava o curso de medicina, enfermagem, ciências biológicas, contudo, por motivos idênticos, cursa a licenciatura em ciências biológicas, resultado não será um bom profissional. - Não estamos, em momento algum, negando o fato de que haja pessoas nos curso de licenciatura que o façam por vocação, muito menos que essas “coincidências” não venham a resultar num acaso vindouro, já que o estudante pode no fundo perceber que apesar do desejo frustrado de fazer medicina, sua vocação é realmente ser professor de biologia. - Ressalta-se, por outro lado, o caráter lógico-dedutivo, de que cursos de licenciatura que oferecem oportunidades de empregos com boa remuneração resultariam em classes de cursos superiores repletas de pessoas de suma excelência e não, como ocorre hoje, nesses cursos onde índices de desistência são altíssimos ou os discentes saem das faculdades e procuram outros empregos que lhes proporcionem uma remuneração melhor.


Não se deve culpar quem faz isto de covardia ou abandono profissional. Como dissemos mais acima, não devemos nunca perder o foco de que falamos de um pais que vive no e a partir do sistema capitalista. E, lugar-comum a parte, “amor não enche a barriga de ninguém”. O amor aqui deve ser entendido como amor a profissão, que muitos possuem, mas poucos conseguem conciliá-lo com a situação financeira. Daí, voltamos ao início do texto. O professor pobre que realiza façanhas em sala de aula, pode comover pessoas na ficção (mesmo que sejam baseados em fatos reais) são momentos raros e nunca, no mundo capitalista a exceção é premiada. Por isso, afirmamos que esse discurso, evocado pelos pedagogos, torna-se retórica para vender livros. O problema real, concreto, é sempre abafado. Não faz parte do trabalho dos pedagogos lutar para que os professores passem a ostentar salários dignos. Não faria parte de sua incumbência ou será que é mais simples ficar ditando regras e normas para que a educação melhore?


Como um professor muitas vezes trabalha os três turnos (manhã, tarde e noite) pode ler livros pedagógicos para melhorar sua prática em sala de aula? Tem-se por raciocínio o seguinte: se o professor não lê a educação não melhora, logo não melhora por culpa do professor. Simples assim, não? Não! O pouco tempo de que dispõe gasta preenchendo pilhas de cadernetas e corrigindo provas, o que sobra (se é que sobra) dedica-se a outras atividades como família e outros afazeres. Alguns livros pedagógicos até citam essa problemática, porém quando o fazem as frases vêm sempre acompanhadas de outras que ratificam a acomodação dos docentes são elas: “... mas nós não podemos ficar esperando que esse problema (a remuneração) se resolva”; “... o professor que fica de braços cruzados culpando o seu salário foge de sua obrigação”. Paulo Freire em seu livro “Pedagogia do Oprimido”, afirma que “o opressor não libertará o oprimido” (pg. 26). Esquecem-se os pedagogos, que não lêem a obra freiriana como o próprio autor queria “com um pé na realidade”, que como o professor poderia professar o discurso de que educação é algo bom, quando ele próprio não consegue viver de educação? Essa contradição é pedra angular no fracasso do discurso docente. Outros dizem que mesmo que aumentássemos o salário dos professores nada mudaria. Ora, faça-o primeiro e em seguida vejamos se corrobora. Dizer que a educação não melhorara com um aumento salarial é desculpa política (e que infelizmente alguns pedagogos acabam por cair) para não investirem em educação. Se há dúvida, passemos da teoria para a prática. Pois, um professor que tem uma única turma, portanto, digamos, trabalha dois dias na semana, fica com três dias livres, poderia sim, ser cobrado por qualquer entidade caso não exercesse bem sua função, mas primeiro é necessário passar do plano ficcional para o real, do abstrato, para, concreto.


O sistema educacional dá maneira como se encontra não pode proporcionar isso ao professor. Enquanto as escolas particulares forem o ensino de suma excelência e a escola pública for o passatempo de jovens marginalizados que procuram a merenda para saciar a fome, o professor não poderá receber um salário digno, visto que a escola particular opera dentro da mais-valia, ou seja, os donos das instituições ficam com grande parte dos lucros e os professores, mão-de-obra, recebem parte ínfima desse montante. O sistema particular é mediado pelo código do consumidor, e não se pode fazer educação de verdade quando quem tem dinheiro manda, ou seja, o aluno, os pais. O professor é um reles empregado, não pode falar ao mesmo nível, nem projetar, novamente citando Freire, “uma situação dialógica nem dialética”. A interação anula-se, pois professor é subordinado ao aluno que paga pelo benefício da aprovação. Na escola pública, não há capital envolvido (não do ponto de vista da relação educador-educando). O aluno não paga para estudar, apenas estuda. Vê naquele diante de si, uma referência, uma figura financeiramente atraente. Sim, falamos financeiramente, pois acreditamos que sendo o docente alguém de referência salarial, pode se contrapor a imagens distorcidas, no entanto atraentes desse ponto de vista, como jogadores de futebol, cantores..., as fadadas celebridades, que em nada contribuem para a educação de jovens e adultos, mas ganham salários exorbitantes, não possuem nenhum papel social concreto, a não ser ludibriar e distrair as massas dos problemas reais da sociedade em que vivem.


O professor precisa ser mais bem remunerado para que possa lutar contra essa “Matrix” criada pelo capital. Neste momento, alguém poderia nos perguntar: “Mas, enquanto isso não ocorre, não temos nada a fazer, há outras prioridades?” Essa é a prioridade. Depois tudo acontecerá em enfeito dominó. “E se não vier o aumento salarial?” Então, a educação permanece caótica como está. De um lado, os pedagogos escrevendo livros sobre como fazer o milagre da multiplicação da educação sem recursos financeiros. O professor continuará sendo refém da escola particular e da extensa jornada de trabalho. A ficção contará belíssimas histórias que comoverão platéias, mas que em nada melhorarão a educação.