Mal a propaganda eleitoral gratuita começou a passar na televisão e as pessoas começam a me contar as histórias bizarras. Como assim? Bem, a primeira relatada foi contada pela minha irmã que ainda assiste a televisão viu um candidato que proclamava não compreender a separação entre política e religião. Se algum(a) idiota deseja saber as conseqüências da relação entre a religião e política olhem, por favor, o período das CRUZADAS. Possuir uma religião não é adjetivo qualificador, muito menos certeza de uma pessoa honesta, pois os atos políticos, ou melhor dizendo, as ações políticas deveriam atingir toda a população, não simplesmente os 50% de pessoas que fazem parte da religião "x" ou "y". Isto não é uma decisão ética, é uma decisão preconceituosa e excludente. Para os que desejam votar com consciência, por favor, escolham políticos que tenham projetos concretos e possíveis de realizar e evite aqueles que colocam a religião acima de princípios éticos e racionais.
Li no Jornal do Commercio de domingo (30/05/07), que um grupo de jovens organizaram uma baderna através do Orkut e, depois do feito, divulgaram sua atuação no YouTube. Muito poderia ser dito sobre estes jovens e sua juventude perdida. Autoridades policiais, psicanalistas e pais vêem o (mal) exemplo como um momento para glorificar um passado (o seu obviamente) onde os jovens eram calmos e respeitavam as leis (paternais ou sociais).
Gostaria de endossar as críticas, mas usar o futuro do pretérito do verbo gostar não foi mero acaso. Para aqueles que desconhecem, esse tempo verbal indica uma ação que ia ocorrer (futuro), no entanto algo a impede deixando-a na impossibilidade (passado). Perdoem meu ceticismo. Acho, apenas, que o discurso saudosista olha as conseqüências e não as causas. Criou-se um discurso silencioso nos meios jornalísticos, que como diz Eni P. Orlandi (2007, p.16) “[...] produzem realmente a multiplicação (diversificação) dos meios mas, ao mesmo tempo, homogeneízam os efeitos”, por outras palavras, classificar o evento corrido de falta de limites dos adolescentes atuais é esquecer que o sujeito se constitui na/pela história.
A psicanálise explica que a adolescência é uma fase-crise, aquela criança que olhava para os pais e via grandes heróis, perfeitos e indestrutíveis, começa a perceber nos pais o seu reflexo falho, distorcido e imperfeito. Essa energia que foi investida retorna e agora será lançada em outro(s) objeto(s). Dar ouvidos ao conselho de amigos e namorados parece natural então. Portanto, seria esse o momento de dizer que aqueles jovens foram influenciados por mentes juvenis desequilibradas? Talvez fosse mais uma resposta fácil. Direi não e explico-me através da pergunta (o não-dito): Por que anunciar com antecedência em um site de relacionamento diante de todos os internaltas? Por que divulgar a filmagem em um site onde todos podem ver? Seus rostos serão identificados, por que correr esse risco?
Alguém dirá: “São jovens carentes, que não tiveram boa educação nem de casa nem da escola.” Os leitores que pensam assim estão enganados. Mais uma vez caíram no velho-novo discurso jornalístico. Pois, nos levaria a concluir que os culpados são os pais e professores e, perdoem insistência, isto seria muito fácil, não? Volto a questioná-los. Por que escolher um meio eletrônico a vista de todos? Os antigos nos ensinaram a tramar na surdina, criar códigos como os templários e desconfiar de tudo e todos para que o segredo fosse bem guardado como na guerra fria, mas aqueles jovens não fizeram nenhuma esforço para esconder o que estavam tramando. Esse é o discurso silencioso que comentei mais acima, um discurso que a mídia impressa e televisiva esqueceu-se de resgatar (coincidência?).
Há, na adolescência, outra crise acontecendo: a busca da identidade. O jovem deseja saber quem ele é longe dos pais e qualquer figura representante de autoridade como os professores, por exemplo. Como se eles olhassem para o mundo e perguntassem: “O que você espera de mim?”, “O que quer que eu seja?”, “O que eu quero ser?”. Na busca por respostas, ele olha para a própria cultura - a mesma que grande parte dos pais e professores (mais estes que aqueles, infelizmente) passaram a vida inteira alertando-os para tomarem cuidado e aprenderem a pensar por si mesmos. E o que a cultura lhes responde: TENHA VISIBILIDADE.
Mesmo que para isso seja preciso andar de fio dental em um programa televisivo e jogar fora seu curso de advocacia, medicina, docência...; mesmo que tenha que aparecer numa capa de revista masculina ou de fofoca sem calcinha (de propósito claro! Para depois dizer que não sabia.); mesmo que fale “probrema”, mas exiba um corpo sarado e músculos definidos; mesmo que faça um filme pornô e chame isso de arte; mesmo que tire a roupa no meio da rua (e depois diga aos repórteres que o fez como sinal de protesto); mesmo que case com alguém famoso(a) e dois dias depois separe; mesmo que para isso precise ir ao motel com três travestis; mesmo que tenha que casar com um bandido..., se o resultado for obter visibilidade, com certeza haverá sucesso e no final felicidade.
Não se choquem. Olhem para os comerciais, as novelas, os tele-jornais, as revistas de fofoca... todos querem aparecer na mídia, serem vistos, serem famosos. Disse Arnaldo Jabor em uma crônica: “Num país onde todos querem ser vistos, ninguém vê ninguém”. Porque só assim seremos felizes. Por isso, os jovens da zona sul postaram o vídeo no YouTube, eles queriam ser vistos. Já posso até imaginar um pequeno diálogo no Orkut após a saída da matéria no JC:
Assaccinosserialquiller:
VIU?! SAIMO NO JORMAL TAMO FAMOSO, MOVEIO! NA PROCHIMA, MATAMO GENTE!
Onoismetalhamooprofeçoor:
INTÃO!!!!!! E NOIS!!! E SO ISCOLE O CANO!!!!!!!!!!!!
OBS.: O diálogo e os erros são fictícios!
Escrevi o texto, pois estou cansado de ver velhas mazelas sendo vistas como novas. Ouvir as pessoas conversando nos ônibus glorificando um passado que não volta mais. Ler livros que culpam nós, professores, por não conseguirmos derrotar a grande mídia e seu discurso silencioso de mover o mundo não pensando num bem-estar comum, mas e apenas, no lucro que podem obter, vendo jovens destruírem suas vidas contanto que tenham algo para publicar. Recomendo a leitura do texto de Arnaldo Jabor “Reality Shows matam nossa fome de verdades”. Para analisar como nós ficamos tão fascinados por esses programas que mostram a “realidade”.
Por isso, numa cultura de consumo, exibicionismo e valorização da mediocridade me espanta a matéria estampada na capa do jornal. Como disse, isto é a conseqüência não a causa, ninguém deveria ficar chocado. Olhem para a nossa cultura atual e se pergunte: Não é esperado? Não é óbvio que iria acontecer? Antes de assustados deveríamos bater palmas para esses jovens, pois eles conseguiram. Concretizaram o sonho midiático, alcançaram o show business, obtiveram seus cinco minutos de fama. Pais orgulhosos: “Agora, meu/minha filho(a) é famoso(a)!”; Nós, docentes, também vamos aplaudi-los de pé: “Finalmente fizeram jus a nosso salário medíocre! Quem precisa de educação quando se tem televisão e fama?! Quem?”. Jovens, estamos orgulhosos de vocês! Parabéns! Mas, infelizmente daqui a pouco seu sucesso será coisa velha, não venderá estampará mais capas de jornais e revistas ou estará nos tele-jornais, por isso vão precisar de algo mais grave, o que será?
P.S.: ESTE TEXTO FOI ENVIADO AO JORNAL DO COMMERCIO-PE.
No fim de semana passado, estive no encontro do Instituto DNA Brasil, em Campos do Jordão. O evento reunia pessoas representativas de várias áreas, para que, durante três dias, debatessem sobre os meios para tornar o país "justo e habitável com dignidade".
Um dia inteiro foi dedicado ao tema da corrupção. A imprensa já relatou as sugestões às quais a gente chegou, consensualmente ou quase: desde o financiamento público das campanhas até o voto distrital misto ou a possibilidade de revogar os mandatos antes do seu fim.
No sábado, bem na hora em que começava a discussão sobre a corrupção, chegou a revista Veja, com a reportagem de capa sobre o suposto financiamento cubano na campanha do PT de 2002.
A pior conseqüência desta série interminável de denúncias e apurações é a aparente "confirmação" de um lugar-comum desastroso: "Eles são todos corruptos" ("eles" são, no caso, os políticos).
Não me importa agora decidir se "eles" são mesmo todos corruptos. Tampouco penso que a imprensa tenha de esconder o que ela descobre só para não "comprovar" que "eles são todos corruptos". Mas o fato é que esse lugar-comum é uma armadilha para nossa capacidade de agir como cidadãos.
Aparte: a reunião do DNA não caiu na armadilha da indignação diante da corrupção generalizada, e esse não foi o menor de seus méritos. Mas a exceção não derruba a regra que vou expor.
Qual é o efeito em nós do "eles são todos corruptos"?
Várias vezes, nos últimos meses, fui entrevistado sobre o estado de espírito dos brasileiros nas circunstâncias atuais. A pergunta, quase sempre, sugeria a resposta esperada: "Quais são os efeitos em seus pacientes da decepção e da depressão nacionais?". Em geral, respondi, preguiçosamente, que, de fato, os acontecimentos são tristes e deprimentes.
Mas essa resposta óbvia (para a qual não seria preciso um especialista) é falsa.
Em regra, o narcisismo da gente funciona assim: quanto maior a imperfeição do mundo, quanto maior a decepção que nos é imposta pela conduta dos outros, tanto maior é nossa exaltação narcisista. No caso, atrás das queixas, a constatação de que nossos representantes e governantes seriam todos corruptos está longe de ser depressiva.
É lógico: acreditar que os outros sejam todos deficientes morais é o melhor jeito de afirmar que nós, ao contrário e em comparação, somos gigantes da moralidade.
Contemplar o mundo como um vasto teatro de defeitos equivale a erigir um monumento à nossa suposta integridade, graças ao seguinte raciocínio implícito (capenga, mas gratificante): se podemos constatar que todos os outros são corruptos, é porque somos os ÚNICOS limpos. De repente, confirmar nossa grandiosa unicidade se torna nossa ocupação principal. Com isso, é paralisada nossa capacidade de transformar o mundo.
A psicologia do self (esta foi, ao meu ver, sua maior contribuição à psicanálise) mostrou o seguinte: temos acesso ao mundo e a uma ação minimamente eficaz para transformá-lo quando paramos de contemplar sua imperfeição (celebrando a unicidade de nossa diferença) e enxergamos na realidade algo (diferente de nós) que possamos idealizar.
Por exemplo, se vivo numa cidade em que acho horríveis todas as habitações salvo a minha, dedico-me integralmente a caiar de branco a fachada de minha casa, na qual, aliás, fecho-me como num sepulcro. Mas se reconheço que, na cidade, há outras moradias que são mais bonitas do que a minha, há chances que um dia eu queira sair de pincel e vassoura na mão para pintar de branco as fachadas da cidade inteira e para lavar as calçadas.
O que vale para as casas vale para os outros. Se acho que todos os outros são imperfeitos, considero-me como a única exceção, torno-me meu próprio ideal, ou seja, só idealizo (e amo) a mim mesmo. É a razão pela qual, em geral, um terapeuta se abstém de julgar moralmente seus pacientes: quem julga está quase sempre mais preocupado em comemorar sua própria integridade do que em entender o outro.
Em suma, as denúncias que assolam nosso cotidiano podem dar lugar a uma vontade de transformar o mundo só se nossa indignação não afetar o mundo inteiro. "Eles são TODOS corruptos" é um pensamento que serve apenas para "confirmar" a "integridade" de quem se indigna.
O lugar-comum sobre a corrupção generalizada não é uma armadilha para os corruptos: eles continuam iguais e livres, enquanto, fechados em casa, festejamos nossa esplendorosa retidão.
O dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro.
Nota: alguns conseguem contemplar e lamentar a imperfeição do mundo sem se gabar de sua própria perfeição. O melhor exemplo (e o mais raro) são os santos. A santidade não consiste só em reconhecer suas próprias falhas ou em perdoar as falhas dos outros. O santo, além disso, enxerga a imperfeição do mundo, mas continua encontrando razões para amá-lo, ou seja, continua encontrando seus ideais lá fora, na banalidade imperfeita dos outros.
"Pode ser até que chegue ao poder (uma liderança revolucionária que não seja dialógica com as massas), mas temos nossas dúvidas em torno da revolução mesma que resulta deste quefazer antidialógico." (Pg.144)
"Se são levas ao processo como seres ambíguos, metade elas mesmas, metado o opressor 'hospedado' nelas, e se chegam ao poder vivendo esta ambigüidade que a situação de opressão lhes impõe, terão, a nosso ver, simples impressão de que chegaram ao poder." (Pg.144)
"A verdadeira revolução, cedo ou tarde, tem de inaugurar o diálogo corajoso com as massas. Sua legitimidade está no diálogo com elas, não no engodo na mentira. Não pode temer as massas, a sua expressividade, a sua participação efetiva no poder. Não pode negá-las. Não pode deixar de pretar-lhes conta. De falar de seus acertos, de seus erros, de seus equívocos, de suas dificuldades." (Pg. 145)"Daí que o populismo se constitua, como estilo de ação política, exatamente quando se instala o processo de emersão das massas em que elas passam a reinvidicar sua participação, mesmo que ingenuamente." (Pg. 170)
"O lider populista, que emerge neste processo, é também um ser ambíguo. Precisamente porque fica entre as massas e as oligarquias dominantes, ele é como se fosse um ser anfíbio. Vive na 'terra' e na 'água'. Seu estar entre oligarquias dominadoras e massas lhe deixa marcas das duas." Enquanto populista, porém, na medida em que simplesmente manipula em lugar de lutar pela verdadeira oraganização popular, este tipo de líder em pouco ou quase nada serve a revolução." (Pg. 170) "É interessante observar a dramaticidade com que Vargas falou às massas obreiras, num primeiro de maio de sua última etapade governo, conclamando-as a unir-se." (Pg. 171)
Dicurso de Lula:
“Aprofundamos nossos programas sociais, especialmente os de transferência de renda. Aumentamos os salários acima da inflação. Estimulamos, por meio de medidas fiscais, o consumo para impedir que se detivesse a roda da economia. (…)
Mas não tenho a ilusão de que poderemos resolver nossos problemas sozinhos, apenas no espaço nacional. A economia mundial é interdependente. Estamos todos obrigados a atuar além de nossas fronteiras. Por isso, é imprescindível refundar a ordem econômica mundial."
Discurso de Vargas:
"Quero dizer-vos, todavia, que a obra gigantesca de renovação, que meu governo está começando a empreender, não poder ser levada a bom termo sem o apoio dos trabalhadores e sua cooperação cotidiana e decidida."
"Enquanto a ação do líder se mantém no domínio das forças paternalistas e sua extensão assistencialista, pode haver divergências acidentais entre ele e grupos oligárquicos feridos em seus interesses, dificilmente, porém, diferenças profundas." (Pg.172)
"É que estas formas assistencialistas, como instrumento da manipulação, servem à conquista. Funcionam como anestésico. Distraem as massas populares quanto à solução concreta destas problemas. Fracionam as massas populares em grupos de induvíduos com a esperança de receber mais." (Pg. 172)
As citações paginadas foram extraídas do livro de Paulo Freire: Pedagogia do Oprimido. Esse livro foi escrito na década de 70.
Qualquer semelhança com as imagens é apenas mera coincidência!