sexta-feira, 25 de setembro de 2009

PARTICÍPIOS REGULAR E IRREGULAR

O particípio é uma das formas nominais da gramática normativa. Tem como desinências: -ado e -ido.

Exemplos:

Cantar > Cantado

Comer > Comido

Partir > Partido

Parece simples, mas é comum ouvirmos frases como: "O fósforo é acendido...", "O garoto é benzido...", "Tinha preso o bandido", "Tinha aceso o fósforo".
O particípio é utilizado para formas tempos compostos, locuções verbais e é obrigatória na voz passiva.

Sabe-se que os verbos auxiliares TER e HAVER exigem o particípio regular (terminados em -ado e -ido).

Portanto, o correto das frases a cima seria:

Tinha prendido o bandido. ou Havia prendido o badido.

Tinha acendido o fósforo. ou Havia acendido o fósforo.

Os auxiliares SER e ESTAR exigem o chamado particípio irregular (forma reduzida de alguns particípios regulares: aceito (de aceitado), aceso (de acendido), bento (de benzido), expresso (de exprimido), expulso (de expulsado), enxuto (de enxugado), preso (de prendido), dentre outros.

Logo, reescrevendo as frases:

O fósforo foi aceso. ou O fósforo estava aceso.

O garoto é bento.... ou O garoto está bento...

Lembre-se que os verbos dizer, fazer, escrever, abrir, pagar, gastar e ganhar, só admitem o particípio irregular.

Dizer > dito

Fazer > feito

Escrever > escrito

Abrir > aberto (não existe abrido!)

Pagar > pago (pagado está em desuso)

Gastar > gasto (gastado está em desuso)

Ganhar > ganho (ganhado está em desuso)

As formas acima aceitam os pares TER e HAVER ou SER e ESTAR.

Um forte abraço!

sábado, 5 de setembro de 2009

POR QUE NÃO TEMOS O PRETÉRITO MAIS-QUE-IMPERFEITO?

A gramática é clara em sua definição: "O pretérito mais-que-perfeito é um passado que se remete a outro passado." Como assim? Existe um passado anterior a outro passado? Exatamente! O que é necessário compreender é que há ações que pessoas realizaram antes das nossas. Imaginemos, para ilustrarmos, o ano de 1.500, descobrimento do Brasil. Nenhum dos leitores deste blogger passou por aquela experiência, portanto podemos lembrar do que fizemos a 15 minutos, ontem, anteontem..., mas os fatos ocorridos quando Cabral avistou nossa costa (a não ser pelos livros de história) não somos capazes de rememorar. Por isso diríamos sem titubear:

"Eu não havia nascido quando Cabral CHEGARA ao Brasil".

Mas, os leitores com uma percepção linguística afiada perguntariam: "Só podemos usar o Pretérito Mais-Que-Perfeito quando nos remetermos a passados 'pré-históricos', ou seja, eventos ocorridos antes de nossos nascimentos?" Não! A história acima é apenas ilustrativa. Sabemos que enquanto realizamos uma ação alguém pode tê-la feito antes. É o caso de ir ao banco. Se desejo chegar no banco cedo para evitar filas é bem provável que mesmo saindo antes do galo cantar haja alguém lá que passou a noite. Para narrar o episódio diríamos:

"Eu cheguei cedo no Banco, mas alguém CHEGARA antes de mim."

O Mais-Que-Perfeito nasce da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito (NOS VERBOS REGULARES); corta-se o "m" final e acrescentam-se as desinências número-temporais correspondentes.

Exemplo:

Pretérito perfeito do verbo amar (ONTEM ELES AMARAM), sem o "m" final fica "AMARA". Pronto, agora é só conjugar:

Eu AMARA
Tu AMARAS
Ele AMARA
Nós AMÁRAMOS
Vós AMÁREIS
Eles AMARAM

A única mudança ocorreu na 2ª pessoa do plural, as demais seguem a regra.

Vamos agora à pergunta do título:

O pretérito MAIS-QUE-PERFEITO é um tempo verbal que aconteceu antes de outro fato que também já terminou. Dos outros pretéritos que temos (o perfeito e o imperfeito), somente o PERFEITO faz menção a ações concluídas no passado. Logo, dizer FIZ, FUI, CANTEI, implica afirmar, respectivamente, que EU JÁ FIZ ALGUMA COISA, JÁ FUI A DETERMINADO LOCAL E CANTEI TAL MÚSICA, mas agora essa ação não é mais praticada. Portanto, os verbos, na grande maioria, que utilizamos antes do MAIS-QUE-PERFEITO estão no pretérito perfeito do indicativo.

Exemplo: "Assim que eu cheguei, ele saíra".

CHEGUEI - 1ª pessoa do singular do pretérito perfeiro do indicativo do verbo CHEGAR.

SAÍRA (extraído da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito - ONTEM ELES SAÍRAM; corta-se o "m", fica-se SAÍRA) - 3ª pessoa do singular do pretérito mais-que-perfeito).

sábado, 11 de julho de 2009

POR QUE VOCÊ NÃO DEVE DOAR AO CRIANÇA ESPERANÇA?

"Sempre que vejo a campanha e a arrecadação gigantescas do Criança Esperança, me vem logo o pensamento: Vai faltar criança..." (Millôr Fernandes)

Após uma noite de chuva tempestuosa vários bairros acordam debaixo d'água. O prefeito da cidade declara estado de calamidade pública, os telejornais não abordam outro assunto a não ser, como moradores humildes de barracos e casas de taipa habitando regiões periféricas perderam tudo durante a enchente. Imagens de mulheres chorando aparecem na televisão para a comoção geral da nação. De repente o jornalista, em uma pausa estratégica para fingir compartilhar o mesmo sentimento que o telespectador anuncia como é possível fazer doações...

O lugar-comum aponta uma fatalidade, um ponto cego diante do problema. Sempre que há um desastre no Brasil, os telejornais festejam o "espírito fraternal" do povo por doar aquilo que muitas vezes nem possuem para os necessitados, contudo não se vê esse empenho partindo das próprias emissoras, ou seja, grandes empresas (incluindo seus donos), artistas
famosos (como as garotas frutas, por exemplo), e os donos das grandes redes de televisão retirando dinheiro dos próprios bolsos para colaborar com a campanha. O que parece ser um comentário, ingênuo e sem fundamento ganha veracidade diante de alguns dados estatísticos.

O valor do salário mínimo é 465 reais. Gugu recebeu da Record uma proposta para abandonar o SBT de 3 milhões mensais. Xuxa Meneghel recebe 2 milhões. A apresentadora Eliana fatura 4 milhões de dólares por mês através de produtos que levam o seu nome. Um senador embolsa 102, 3 mil reais por mês. Um cidadão comum paga em imposto 4.800 reais por ano. Observando novamente o valor do salário mínimo percebe-se a ironia por trás dos números apresentados. Após depositar nos cofres públicos tamanha quantia, a população recebe a contra partida um serviço de saúde que beira o caos e um sistema educacional que desinforma mais que informa.

Se o governo recebe através de impostos 4.800 reais de cada cidadão, por que não consegue devolvê-lo com obras e melhorias infraestruturais? E além do mais, por que se precisa doar dinheiro, roupas, comida..., fazer doações a ONGs e entidades beneficentes? E, talvez a pergunta mais capciosa, por que quem arca com a responsabilidade é uma população que paga tamanha carga triburária? Porque os grandes astros e estrelas, políticos e essas pessoas que formam a elite nacional abrem mão de seus patrimônios, mas a população sim? Para onde vai o dinheiro pago em impostos?

Levando em consideração que a saúde e a educação foram citados acima, vamos a outros dados: um professor na rede pública de ensino recebe 950 reais; médico pelo SUS, 2,50 por consulta. A disparidade salarial traz uma lógica irrefutável, para que doar ao Criança Esperança? Seria mais prudente cobrar as autoridades responsáveis para investir todo o dinheiro suado que o brasileiro paga em impostos? Exigir melhores salários para os profissionais que prestam serviços fundamentais como educação e saúde? Do que ver um grupo seleto de pessoas que não contribui em nada receber milionárias quantias? Xuxa, Gugu, Eliana... possuem acesso aos melhores hospitais e seus familiares frequentam as melhores escolas, acham realmente que eles estão preocupados com o que acontece na rede pública de ensino ou nos hospitais conveniados ao SUS?

Mas, existe algo sinistro em toda essa história. Algumas pessoas fazem doações por outros motivos. Talvez, elas queiram parecer justas. A falsa moral escondida nessas atitudes está em bandarmos em bons pulmões: "Nós doamos, somos bons, eles não!" ou, possivelmente, "Nós passaremos pelas portas do céu, eles arderam no fogo do inferno!", o consolo póstumo gera a acomodação. Alimenta a alma e empobrece a nação. Transforma pessoas comuns em santos à espera da beatificação. Doar é bom, melhor seria não fazê-lo, pois teríamos menos desculpas e mais atitude.

Fontes citadas retiradas da internet.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

FALANDO UM POUCO SOBRE O CAPITALISMO

O capitalismo é um sistema desigual por natureza, pois transforma o mundo em um imperativo darwinista: os mais fortes sobrevivem; fracos pereceram. Ao afirmar isso, muitos balançaram suas cabeças em concordância, no entanto poucos conseguem estender o pensamento para conclusões mais óbvias, porém não tão claras. Por ser um sistema desigual, o capitalismo é antônimo de "democracia", "ONU", "Criança Esperança", "Ajuda ao próximo"..., só para citar palavras e expressões que costumam encher a boca dos falsos pobres em épocas natalinas. Não há esmola que alivie a fome, pois a voracidade do capital exige a pobreza sacramentada, não podemos, nem no delírio mais insano, imaginar uma sociedade capitalista igualitária. Essa realidade discursiva é conclamada pelos burgueses, para pôr uma cortina na mente dos mais necessitados. Pregar falsas esperanças, por sinal, é lugar-comum em uma sociedade capitalista, pois somente assim, a burguesia encimenta sua posição.
Portanto, que a pergunta feita no filme Matrix seja um convite à reflexão: "Você já teve um sonho que achou que fosse real?"; o capitalismo-democrático é o sonho-realidade da nossa sociedade. O despertar ocorrerá de maneira semelhante ao da personagem Neo, quando perceber sermos alimento para um sistema falido e decadente.

sábado, 13 de junho de 2009

ADÃO, EVA, A MAÇÃ E O DESEJO NA PSICANÁLISE

Quando a psicanálise se encontrava entregue a toda e qualquer divagação eis que surge a figura de Jacques Lacan. Então cursando medicina, mas se especializa em psiquiatria, defende sua tese: "Da psicose paranóica e suas relações com a personalidade", é nesse momento que rompe com os trabalhos psiquiátricos. Começa a fazer análise com Loewestein e tem seus primeiros contatos com a psicanálise de sua época é quando percebe a grande deturpação que a teoria freudiana havia sofrido nos últimos anos. Lacan propõe o retorno a Freud para evidenciar que o pai da psicanálise não aprovaria certas práticas clínicas da década de 50.

O conceito de desejo é pedra angular da teoria lacaniana, pois evidência um elemento nodal: a falta. Para Lacan, o ser humano é o ser da falta, portanto do desejo.

O desejo nasce nos primórdios da infância, quando na tenra idade o infans, ser egoncêntrico por natureza, acha que o mundo se resume a ele próprio e a mãe. O pequeno detém aquilo que falta à mãe, que na ilusão da criança, trata-se dele mesmo, ou seja, o que falta à mãe é a criança e já que ela o tem, não há mais nada faltando, sendo assim, para este também não existe vazio, a mãe lhe completa. Essa falsa completude finda com o aparecimento da figura paterna. O pai surge como um intruso para mostrar a criança que ele não é aquilo que falta a mãe. Sendo expulso da totalidade, o infans fica marcado pela falta.

O desejo funciona assim: "deseja-se o que não se tem". É necessário não possuir para desejar. A vontade de comprar um carro novo só eclode quando o produto não está sobre nosso poder. Daí o filósofo alemão Hegel tê-lo chamado de "vazio ávido de conteúdo".

No mito bíblico de Adão e Eva, temos um exemplar presente na tradição do conceito de desejo. Quando Deus fala para ambos não tocarem no fruto proibido, coloca um terceiro elemento. Antes, Deus estava para Adão e Eva, assim como Adão e Eva estavam para Deus, havia a totalidade, sem desejo, portanto. Sem ter o que desejar, o paraíso permanecia estável, previsível. A maçã representa a lacuna, o primeiro sintoma sentido pelos habitantes do paraíso fora uma falta, a nudez. A serpente, chamada de demônio, tentação, seria o inconsciente impulsionando-os para um objeto de desejo, algo que eles tinham, mas não poderiam tocar, não poderiam ter, uma árvore fálica que conteria a chave das algemas do todo. A liberdade, aconchapante, regida pela culpa deixa ambos diante de uma pergunta lacaniana: "O que deseja de mim o Outro(maiúsculo mesmo)?" Concumitante, a noção de pecado aqui, é substituta da palavra desejo. Adão e Eva aprendem a desejar, o ser significa "o não-ter". O objeto proibido, a maçã, criou um mal-estar, deslocou-os para o Édipo. Foram expulsos do ventre materno pelo anjo-pai, com sua espada fálica, mostrando quem era o real detentor do falo, o falo castrador para Adão; o objeto de desejo para Eva que o encontrará em seu futuro cônjuge.

Adão e Eva passaram o restante dos seus dias à procura daquilo que perderam, tentando reconquistar seu lugar diante do completo. O que para os católicos representa a queda e o declínio de nossa espécie como seres parciais sem a presença divina, para a psicanálise, anuncia o princípio. A modida dada no fruto proibido, de maneira semelhante, deixou-nos faltando um pedaço também. Só assim poderíamos desejar.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

POR QUE PRECISAMOS DE SUPER-HERÓIS?

Acabo de assistir ao filme Push (traduzido como Heróis), que conta a história de um grupo de pessoas com poderes que são perseguidos por uma agência que deseja utilizar suas habilidades para fins não muito ortodoxos. Não há novidade alguma no enredo, contudo um fenômeno chama a atenção.

Da mesma forma que na clínica psicanalítica a repetição é um sinal do inconsciente, a avalanche de produções cinematográficas envolvendo super-heróis é um sinal de que algo (inconsciente) ocorre. No filme Superman Returns, apesar do fiasco de bilheteria, a pergunta que é feita nos serve de suporte: "Por que precisamos do Superman?", ou, no nosso caso, "Por que precisamos de Super-heróis"?

A tradição nos faz olhar para o passado. Quando Capitão América foi criado o mundo contemplava a arssenção do nazismo. Não era coincidência que seu arquiinimigo, o caveira vermelha, fosse nazista. O povo americano viu o manto negro do nazismo se estender por todo o mundo assim que Hilter ocupo a França. Sentindo-se solitário e abandonado eles conclamaram um salvador, um héroi. Foi então que em 1941, Joe Simon junto com Jack Kirby, criaram a figura de um super-herói que não apenas defendesse seu país, mas que carregasse no próprio corpo a bandeira dos Estados Unidos, daí nasceu o Capitão América.

Outro fato ilustrativo envolve a criação do Super-Homem. O homem de aço nasce 1938, publicado na revista ATCION COMIC número 1. Atrelado a isso temos uma série de fatores históricos: a crise das bolsas de valores em 1929 que jogou o país em uma recessão, nos anos posteriores o país ergue-se e começa disputar como uma das grandes potências, mas é assolado por uma 2ª grande guerra, e essa ameaça faz surgir a imagem de alguém SUPER. Alguém que viera de um planeta destruído e, como os Estados Unidos que viu sua grande nação sofrer com a 1ª guerra e com a crise de 29, portanto, precisavam de uma esperança, de um ícone, algo que fosse mais rápido que um trem, que pudesse saltar prédios, que os inimigos tremessem só de ouvir seu nome, eis que surge o Super-Homem, um homem indestrutível, como o seu povo desejava que assim o fosse seu próprio país.

Os super-heróis são a representação de nossas defesas, eles surgem, ou melhor, nós os criamos quando nos sentimos aflitos, são elementos simbólicos (criados pelo inconsciente) para suportar a finitude humana ou objetal. É um processo natual pelo qual todos temos que passar e que Freud ilustrou muito bem com o jogo do Fort-Da. O pai da psicanálise notou que na ausência de sua mãe, seu neto chorava compulsivamente, mas, determinado dia, após a saída da mãe, nada se ouviu. Intrigado Freud foi ver seu neto e o surpreendeu brincando com um carreteu que jogava e puxava para si, dizendo: "Fort (quando lançava) e Da (quando puxava de volta), em português poderíamos traduzir como: "Desapareceu-apareceu". Freud chegou a conclusão que o garoto simbolizara a ausência da mãe através do jogo e aprenderá a lidar com ela. Por isso, a partir de 2006, a efervecência de filmes de super-heróis representaria um novo clamor. A ilusão de que alguém SUPER poderá nos ajudar (o Chapolin Colorado?) em momentos de desespero.

Não é preciso procurar fatos para justificar isso, tendo em vista que são evidentes. Desde o 11 de setembro, a frase do ex-presidente George W(AR) Bush ecoa, como o sussurro de uma assombração nos ouvidos de todos: "Nós não estamos mais seguros...". Hoje, a crise financeira que perpassa as grandes potências e deixa amendrotados os países em desenvolvimento (e subdesenvolvidos), é o grande vilão. Talvez por isso, só esse ano tivemos o filme de Dragon Ball, X-Men: A origem de Wolverine, O exterminador do futuro - A salvação e teremos os lançamentos de G.I. Joe (Comandos em Ação), Transformers II, o quinto filme de Harry Potter... apenas para ilustrar o que dissemos.

Contudo, semelhante aos heróis de capa e cueca por cima da calça, que nunca morrem e concomitantemente não derrotam seus arquiinimigos, nós estamos fados na busca da terra do nunca..., estamos procurando viver dentro da matrix e os super-heróis são a nossa pílula azul que nos mantém feliz dentro de uma ilusão. É necessário despertar desse sonhos de uma noite de verão e acordamos para a nossa responsabilidade enquanto humanos, pois o final feliz só acontecem com a participação efetiva das personagens, ou seja, nós!

domingo, 10 de maio de 2009

A 1ª PESSOA NA CARTA ARGUMENTATIVA: O NÃO-EU

Quando a UFPE e a UFRPE optaram por trabalhar com mais um gênero em suas redações foi comemorado como nunca pelos feras que já estavam cansados da dissertação, pois esse novo modelo possibilita o uso da 1ª pessoa do singular (para alguns, a chance de dizer finalmente! "Eu penso", "Na minha opinião", "Eu acho").

Alguns professores levados pela enforia dos seus alunos teceram rios de elogios sobre a carta argumentativa, mostrando como escrevê-la seria muito simples e, em tom profético, anunciaram que aqueles que nunca conseguiram produzir duas linhas de qualquer texto conseguiriam, finalmente, escrever uma redação com chances a passar em 1º lugar! Optamos pela precaução, antes de empunhar a bandeira da falsa liberdade (em prol do lucro dos que acreditam nessas promessas).

Vamos, primeiramente, pensar sobre o que é a carta argumentativa. Esse gênero, para os vestibulares, significa a usar a primeira pessoa do singular (EU), já que é dirigida a alguém que está anunciada no vocativo (Senhor Fulano de Tal, Vossa Excelência Presidente da República, Vossa Majestade Rainha Elizabeth...), mas eis que é exatamente aí que começam os questionamentos. Sendo o vocativo alguém que o fera não conhece isso implica, invariavelmente, que o "EU" é um "não-eu", ou seja, o fera que se anuncia através do EU é um falso fera, pois ele nunca conversou com o Presidente da República, com a Rainha Elizabeth, com um terrorista... Logo, quando o fera se dirige a essas pessoas ele finge, imagina, inventa, que está num diálogo com essas pessoas. O candidato passa-se por uma personagem.

A palavra personagem é de origem latina, persona que quer dizer máscara. Na grécia antiga, os atores usavam máscaras para representar suas personagens, daí a personagem ser alguém que finge ser um outro. No francês, personnne, significa ninguém. Portanto, aquele que escreve a carta argumentativa é um personagem, não o fera em si. Para deixar claro o que estamos falando, vamos analisar a proposta de 2008 que estreiou a carta argumentativa em nossos vestibulares:

"Imagine que você assistiu a uma conferência em que um cientista defendeu a idéia de que o ser humano, ao longo do tempo, tem evoluído em muitos aspectos. Agora, elabore uma carta formal, dirigida a esse cientista, na qual você manifeste sua opinião acerca do presente tema, argumentando a favor das idéias defendidas ou contra elas."

Façamos uma simples pergunta: quais dos alunos que faziam a prova de redação naquele dia assitiram realmente à conferência? Resposta: NENHUM! Logo, eles estavam assumindo uma personagem, vestindo sua máscara.

O que nos leva a uma conclusão estranha e contraditória em relação ao festejar do início do texto. A dissertação, escrita na 3ª pessoa do singular ou plural, acaba sendo mais pessoal do que a carta, pois na dissertação todas as palavras são do fera (claro que sem a presença do pronome EU), enquanto a carta argumentativa trabalha com um EU falsificado, pois trata-se de uma personagem.

Como argumento final gostaríamos apenas de dizer que a carta é um gênero bastante interessante e que deve ser trabalhando pelos candidatos que prestarão o vestibular de 2010 para a UFPE (tendo em vista que a UFRPE aderiu ao ENEM e, por enquanto, não há carta argumentativa neste), mas toda a precaução é bem vinda para não caírmos em falsas promessas e explicações superficiais que nos levam para a beira do abismo, em vez de conduzimo-nos as portas do céu!

OBS.: Aqueles que estranharam o uso do artigo "a" antes da palavra personagem, fiquem cientes de que no Dicionário Aurélio ela é classificada como substantivo feminino.

Obrigado pela leitura!

DÚVIDAS: l.antonion@gmail.com